Você quer um pão ou o importante é o “FIT Cultural” do padeiro?
O tema “FIT Cultural” é um assunto que mais tem gerado polêmica no mercado de trabalho nos últimos anos, pois desde a sua invenção pelos teóricos da psicologia organizacional a população nunca foi apresentada formalmente a esse conceito através do ensino formal na escola ou até mesmo na universidade.
Eu me pergunto: “Afinal de contas, quem um certo dia achou legal cobrar um conceito de forma subjetiva aplicando testes mais subjetivos ainda em pessoas que não tem um entendimento básico dos conceitos do que é o FIT Cultural?”.
E eu me respondo: “Foi em nome da inovação e automatização do trabalho que muitas empresas acharam correto e moderno trazer as teorias comportamentais para o ambiente de avaliação de candidatos para uma entrevista de emprego. A grande questão é que ninguém foi preparado para isso e que a aplicação das teorias foi apresentada a seu público nas plataformas de contratação (e ainda é) através de formulários simplórios e que trazem ao candidato a uma vaga de emprego um grande sentimento de subjetividade”.
Nesse momento você deve estar se perguntando: “Mas quem é esse cara que está escrevendo esse artigo e o que ele entende de teorias de recursos humanos se ele nem é formado em psicologia ou recursos humanos? ”.
E eu respondo a você: “Sou um entre mais pessoas que acreditam que o trabalho é uma construção diária que envolve a convivência humana e a aplicação de conhecimentos para ao final chegar em um resultado objetivo que é a resolução de uma questão”.
No ambiente de trabalho o que realmente vai importar ao cliente é o resultado, afinal de contas, os clientes querem “o seu problema resolvido” e por isso eles procuram outras pessoas e as remuneram para isso, seja na forma de resolver a sua fome comprando algo para comer ou até mesmo procurando um médico que possa trazer a cura para uma doença através de uma cirurgia complexa. Mas no final, o que o cliente precisa é sempre o mesmo: “Ter o seu problema resolvido da melhor forma possível dentro das condições que foram acordadas e dentro das possibilidades do momento”.
Ninguém por exemplo vai na padaria porque o “FIT Cultural” do padeiro é compatível com os valores e critérios que o cliente julga que sejam importantes, geralmente uma pessoa vai em uma padaria porque precisa comprar algo para comer e saciar a sua fome (Um pão por exemplo), ou seja, você não está preocupado com o “FIT Cultural” do padeiro e apenas quer “matar a sua fome”. E na “visão do cliente” sempre vai ser isso: “Eu vou na padaria que tem qualidade no atendimento e nos produtos que comercializa, com a finalidade de saciar o meu desejo pelo alimento que ali é comercializado”.
Nenhuma pessoa entra em uma padaria porque:
- Os valores pessoais dos atendentes são alinhados aos valores da empresa (padaria, nesse caso).
- A forma de comunicação e de relacionamento dos atendentes é a alinhada com o seu “FIT”.
- O estilo de trabalho é considerado o mais alinhado com o seu “FIT”.
- Os atendentes possuem uma visão sobre liderança, ética e propósito alinhadas com o seu “FIT”.
Uma pessoa entra em uma padaria porque:
- Ela possui um bom atendimento
- Tem um preço adequado ao produto que oferece
- Possui um bom padrão de limpeza (Ninguém quer ficar doente com comida ruim)
- Possui um ambiente organizado (Ninguém quer perder tempo procurando um produto)
Mas você vai afirmar: “Mas para você ter tudo o que precisa em uma padaria o FIT Cultural é muito importante e sem ele a padaria não atenderia ao que você disse! ”.
E eu respondo…
O básico que todo mundo que quer conviver em sociedade é o que realmente importa ao mercado de trabalho e há anos vem sendo realizado pelas pessoas antes da “invenção do FIT Cultural”.
Uma pessoa antes do “FIT Cultural” sempre teve que atender aos seguintes requisitos para conseguir um trabalho:
- Estar disposto a cumprir as regras da empresa
- Ter educação com todas as pessoas que fazem parte do seu ambiente de convivência
- Possuir um nível mínimo de asseio e cuidado com a sua aparência
- Entender e cumprir todos os passos para a realização de seu trabalho
- Agir de maneira ética e de acordo com a moral e os bons costumes
E eu digo que isso que é o que realmente importa e isso o “empregador” vai saber por meio de uma entrevista bem estruturada e com o período de experiência (sim, é dentro desse período que o empregador vai avaliar se o empregado atende ou não o que a empresa precisa).
Não é por meio de um questionário de 172 perguntas com 1 minuto para responder cada uma que você vai conseguir avaliar uma pessoa, com perguntas do tipo:
- Se você fosse para uma ilha deserta e pudesse levar apenas três itens, quais seriam?
- Quantas bolas de tênis caberiam dentro de um Fusca?
- Se você fosse um animal/carro/objeto, qual seria e por quê?
E não, você não vai conseguir avaliar uma pessoa em uma entrevista online de 10 minutos com perguntas do tipo:
- Me fale sobre você
- Onde você se vê daqui a 10 anos
- Me fale uma inovação que você fez em seu trabalho anterior
O que realmente você deve avaliar é se a pessoa sabe realizar ao menos o básico que a pessoa deve ter para desempenhar um bom trabalho na empresa, por exemplo em uma padaria o que eu avaliaria para um cargo de padeiro:
- Se a pessoa já tem alguma experiência na função que o cargo exige ou ao menos um curso específico de formação na área
- Se a pessoa concorda com as regras que a empresa possui para o desempenho da função (apresentando elas claramente antes e durante a entrevista)
- Se a pessoa está disposta a trabalhar no horário que a empresa necessita (turnos e etc.)
- Se a pessoa tem a disponibilidade para se deslocar para a empresa (distância, meio de transporte e etc.)
- Se a pessoa concorda com a remuneração que a empresa está disposta a oferecer (benefícios inclusos, descontos autorizados por lei e etc.)
O que eu não avaliaria para um cargo de padeiro:
- Cor, sexo, raça, religião ou idade (exceto se for algo que desrespeite a lei quanto ao quesito de idade mínima para trabalhar na função)
- Como ela se vê ou como ela acha que as pessoas a observam (Aquelas típicas perguntas de listas de palavras para selecionar em testes de “FIT Cultural)
- Eu não perguntaria se a pessoa tem certeza mesmo que sabe desempenhar a função
- Eu não duvidaria das informações que ela informou em seu currículo (Fazendo perguntas que deixam claro esse tipo de atitude do entrevistador, exemplo: Você sabe que será avaliado o seu conhecimento?)
- Eu não perderia o meu tempo e o da pessoa selecionando ela para entrevista se eu através da análise do currículo identificasse que a pessoa não é a ideal para a vaga (responderia de pronto que no momento a empresa necessita de alguém com outro perfil e explicar isso de maneira clara, por exemplo: necessitamos de alguém que já possua experiência anterior na função)
- Não ficaria desconfiado de porquê uma pessoa com experiência em uma área que paga mais, quer trabalhar em uma vaga que paga menos (as vezes a pessoa só quer ter uma vida mais tranquila em uma nova atividade que é mais prazerosa a ela e que ao mínimo paga o que ela necessita para sobreviver no momento).
Quando você vai selecionar uma pessoa você tem que confiar nela a partir do que ela disse no currículo, se você não possui confiança no que ela escreveu, faça esse favor a ela de não chamar ela para a entrevista para constranger ela com questionamentos baseado no “que você acha dela baseado em suas experiências anteriores, teses, livros ou até mesmo seriados”, uma pessoa que se candidata a uma vaga tem a plena consciência e responsabilidade por suas informações prestadas por meio do currículo.
Uma pessoa geralmente ficará nervosa em uma entrevista de seleção, afinal de contas, quem nunca ficou nervoso ou nervosa com o famoso “frio na barriga” durante um processo seletivo. Se isso fosse critério para a seleção 99% dos candidatos de um vestibular, por exemplo, já teriam sido reprovados antes mesmo de realizar a prova. Então cabe a quem avalia ser mais objetivo e humano na hora da condução de uma avaliação (seja de qual tipo for ela), pois não podemos julgar ninguém por seu nível de ansiedade com o processo seletivo em si.
Mas voltando a questão de contratar um padeiro, não seria mais lógico em vez de se preocupar em aplicar testes vagos e subjetivos, aplicar um questionário de situações sobre o dia a dia de um padeiro, como por exemplo:
- Você por descuido deixou uma fornada de pães queimar no forno, qual seria a sua atitude?
- Comunicar ao seu superior o ocorrido e sugerir o descarte dos pães assumindo que foi uma falha sua e que você a partir de agora terá mais cuidado para que isso não ocorra novamente.
- Enviar mesmo assim para a venda pois “é normal” acontecer isso
- Colocar a culpa nos balconistas da padaria que estavam apressando você para assar logo os pães.
- Esconder os pães para depois jogar no lixo quando alguém não estiver observando
- Você pegou o seu colega de trabalho desviando mercadorias da padaria, qual seria a sua atitude?
- Não falar nada a ninguém, pois o que importa é a amizade e o espírito de equipe
- Pega algumas mercadorias para você também, pois acha que tem direito também
- Agride o seu colega de trabalho para que ele não faça mais isso
- Comunica imediatamente o seu superior sobre o fato ocorrido
- Um fornecedor ofereceu uma quantia em dinheiro para você aprovar a compra de farinha de trigo de baixa qualidade e com um preço maior que o normal, o que você faz?
- Aceita o dinheiro e aprova a compra, pois não vê problema nisso
- Acha pouco e pede mais dinheiro para aprovar a compra
- Aprova a compra, mas não aceita o dinheiro
- Não aceita o dinheiro e comunica o seu chefe
- Dois colegas de trabalho seus começam a discutir sobre futebol e a discussão está tomando proporções que podem ocasionar algo pior, o que você faz?
- Aposta com os outros colegas quem vai ganhar a briga
- Agride os dois colegas e ofende eles verbalmente
- Conversa calmamente com os dois e os lembra que estão em ambiente de trabalho, controlando a situação e resolvendo a questão
- Grita, chora e se descontrola emocionalmente
Viu, é simples, com perguntas sobre situações do dia a dia como a dos exemplos anteriores são muito mais eficazes e objetivas para avaliar como um funcionário se comportaria em determinadas situações do que perguntas subjetivas baseadas em teorias puras e simples.
Quando estamos trabalhando com pessoas temos que ser mais humanos, afinal o que importa são os recursos humanos que vão fazer as atividades na empresa e não os testes, planilhas, teorias e sistemas “da moda”.
A vida inteira o bom senso sempre deu certo nas relações de trabalho, seja na contratação ou outro processo. Então não deixemos que a escolha de um simples pão se torne um tratado filosófico sobre o “FIT Cultural” do padeiro.
Até a próxima!
Créditos da imagem utilizada: Foto de Yasin Onuş: https://www.pexels.com/pt-br/foto/padeiro-artesanal-preparando-pao-fresco-no-forno-36445170/
